Aqui é a Nina. Sim, a arara. Não, eu não voei até aí — tenho arrepio de pena só de olhar pra cima. Vim a pé, de barco e de carona na carroceria de um caminhão de laranjas, e foi por isso que esta carta demorou uns dias a mais. Eram muitos passos. Contei quarenta e dois mil e trezentos e parei, porque a mala pesa e alguém tinha que reclamar.
Explico o que eu faço. Os guardiões deste país — o Curupira, a Iara, o Saci e mais uns tantos — não podem sair de onde vivem, e mesmo assim se escrevem o tempo todo. Alguém precisa levar. Todo mensageiro antes de mim voava — e desistiu na primeira mata fechada. Eu não voo. Aceitei o serviço. Este é o meu primeiro ano na rota, a minha primeira volta, e a tarefa é descobrir onde cada um deles vive e marcar no mapa. Se eu fechar o mapa, ganho o passaporte de mensageira. Eu quero muito esse passaporte, e não gosto de admitir que quero coisas.
E é aqui que você entra: você agora é correspondente oficial, com número e tudo — está no cantinho desta carta. Eu te escrevo de cada lugar onde pisar, e leio tudo que você mandar de volta. Devagar, porque leio com um olho de cada vez, mas leio.
Fiquei sabendo que você adora dinossauros. Anotei e guardei na mala, junto com as cartas e com uma pedra que achei bonita e agora não sei mais por quê. Mensageira precisa saber dessas coisas: se eu cruzar com isso pelo caminho — e olha que eu cruzo com cada coisa — vou lembrar de você.
Vou te confessar uma coisa. Esta é a primeira carta que escrevo pra alguém que não conheço, sem saber se vai ter resposta. Fiquei com a pena parada em cima do papel um tempão. Mandei mesmo assim. Arara-azul escolhe um par pra vida inteira, você sabia? Uma vez e pronto. Pois é. Eu escolhi te escrever.
Junto vai o mapa dos lugares onde já pisei — por enquanto, poucos — e o seu distintivo de correspondente. O mapa explica onde cada coisa vai; os guardiões chegam a partir da próxima carta.
Me conta uma coisa: o que tem de azul aí na sua casa? Procura com calma. Eu espero, que pressa é coisa de quem voa.